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sexta-feira, maio 08, 2009

Esquecer mesmo a lembrar


(...)
Ouve-se muitas vezes por aí: “esqueci-me!”. A minha questão é: será que foi esquecimento?


Não, não foi esquecimento, não existe esquecimento quando nos queremos lembrar. Lembrar sem parar e sem quaisquer entraves. Lembrar-se nos momentos mais triviais, quando a lembrança não tem nada a ver com o momento em questão.


Gosto de lembrar-me, lembrar-me sem parar das coisas que me quero lembrar, sabendo que nunca as vou esquecer. Mesmo as coisas que quero esquecer hei-de lembrá-las sempre para relembrar-me dos desafios que enfrentei, percebendo onde estou e para onde caminho. Mas não quero esquecer-me de nada, quero lembrar-me sempre de tudo, para levar comigo cada peça do puzzle, que depois dará um lindo quadro. Um quadro para colocar no meu cantinho mais precioso e olhar para ele todos os dias lembrando-me das minhas lembranças mais queridas.


Posso não estar sempre a dar a lembrar-me porque sei que quem quer lembrar-se de mim há-de lembrar-se sempre e quem não quer também vai, porque não há esquecimento. Esquecimento é pensar que não nos lembramos de algo ou alguém por mais que saibamos que nos lembramos, mas que não demos o enfoque suficiente a essa lembrança quando ela tinha os holofotes todos ligados e jamais passaria despercebida.


Por isso, trago em mim cada palco que pisei, todas as personagens que comigo contracenaram e recordo-me do público que, algumas vezes aplaudia de pé e outras, porém, mantinha-se impávido e sereno, como se nem estivesse a decorrer qualquer espectáculo e, na verdade, não estava, mas toda a gente acreditava que sim, inclusive eu própria.


Hei-de lembrar-me sempre de tudo, convicta e certa de que jamais vou esquecer, nem quero esquecer, quero lembrar-me sempre de cada bocado de mim e de ti…

quinta-feira, abril 30, 2009

A caminho do desconhecido…



Se há uma coisa que eu gosto é de viajar. A sensação de viajar é semelhante àquela que se apodera de nós quando vamos a um restaurante e o funcionário coloca-nos à frente um prato com muito bom aspecto.

Tudo indica que aquela comida estará deliciosa, porque tem aspecto de o ser, mas só no momento em que, efectivamente, colocamos o paladar em acção, é que podemos tirar as devidas ilações.

Algumas vezes a comida está, de facto, deliciosa e deleitamo-nos com cada bocado daquele manjar dos deuses. Outras, porém, o paladar não faz jus ao aspecto espampanante que nos delicia (somente) os olhos.

É assim que eu me sinto quando vou viajar, sinto-me em vias de “provar” algo cujo aspecto é extraordinariamente inebriante. Sinto o mesmo arrepio que me percorreu o corpo quando fiz slide pela primeira vez. Ainda me recordo do cenário: subi até o cimo de uma pequena cascata e deslizei por entre as montanhas, finalizando o percurso num pequeno ribeiro poucos metros abaixo. Foi uma experiência tão interessante que eu acabei por repetir pouco tempo depois.

Existem também aquelas viagens que fazemos sem sair do local onde nos encontramos e, apesar disso, tudo parece tão real na nossa mente que é como se estivemos, de facto, perante aquele cenário por nós idealizado. É como imaginar o Benfica a ser campeão… os festejos efusivos… e depois damo-nos de conta que não estamos lá, que o Benfica não ganhou o campeonato e, apesar de tudo, acreditamos que isso é verdade, porque para nós é verdade e ninguém que diga o contrário porque nós nem queremos saber.

É assim que eu vejo as viagens, como um campeonato que está mais que ganho, mesmo quando estou na última posição da tabela classificativa e sinto-me orgulhosa por isso, apesar de ao sair do estádio ser contemplada com os adeptos a acenar-me com lenços brancos.
Para a próxima época há mais, descansem!

sábado, abril 25, 2009

Elogios masculinos...


Alguém consegue explicar o motivo pelo qual sempre que algum indivíduo do sexo masculino faz um elogio a um do sexo feminino ninguém o leva a sério e torcem o nariz esboçando um sorriso maroto?

“Pois… sei!” – dizem com um ar de sexta-feira quando já a noite vai longa e os níveis de alcoolemia já permitem conduzir um carro em linha curva.

Então que sabedoria suprema é essa ou que fórmula super secreta se esconde por detrás da raiz quadrada do raciocínio sobre o qual me debruço?

Não quero originar um “Prós e Contras” nem descobrir o sexo dos anjos porque toda a gente sabe que a RTP já deu o que tinha a dar e que os anjos têm mais que façam sem ser debruçar-se sobre temas pseudo-intelectuais que só ficam bem quando se lhes junta uns indivíduos com um ar intelectual que se auto-designam de “especialistas”, quando a sua única especialidade é a trivialidade de não saberem nada sobre coisa alguma.

Ora, eu como pseudo-entendida no assunto afirmo convictamente que não percebo nada de cálculo matemático, quando se lhe adiciona a probabilidade de obter um elogio sem qualquer auto-proveito. Tenho de averiguar se uso os arranjos ou combinações para chegar a um resultado exacto que possa exibir na tentativa de que ninguém o questione.

Até digo mais, tenho sérias dúvidas de que este processo desencadeie um reflexo condicionado que depois se acciona cada vez que se fizer soar a campainha do discurso, impecavelmente articulado, numa teia de aranhas que numa só vassourada se desfaz.

Mas de momento o canil está encerrado para obras e os processos pavlovianos já estão, ligeiramente, ultrapassados. Insisto no raciocínio lógico-matemática e asseguro que depois do cálculo efectuado não haverá qualquer margem para a mais ignóbil incerteza.

sexta-feira, abril 24, 2009

Simplesmente escrever…

Existem dias em que cresce em nós a vontade de escrever qualquer coisa sem sabermos bem o que escrever. Escrever só porque apetece escrever, escrever sobre qualquer coisa, pessoa ou situação.

Depois, quando parece que não temos nada para escrever, escrevemos sobre tudo e sobre nada, sobre o infinito e o finito, sobre a dia e a noite, como se isso fosse, realmente, importante e merecesse ficar registado, mas merece de tal forma que acaba por ficar imortalizado.

Então hoje escrevo sem saber o que escrever quando tenho tanto para dizer e nem sei por onde iniciar. Escrevo porque gosto das palavras, da sua conjugação, das frases que consigo construir sem grande esforço e porque posso reler o texto e achar que nada disto faz sentido, mas faz, eu é que não consigo conferir um sentido a algo que transcende até o mais ínfimo ou grandioso sentido.

As palavras equiparam-se ao toque de um telemóvel, alto e ritmado, num momento em que nós não queríamos ser interrompidos, de forma alguma. E quando o telemóvel toca, tudo se desmorona, sem se ter dado a construção.

Existem momentos em que proferir qualquer palavra torna-se desnecessário porque existem coisas inexprimíveis… são coisas que nem sei bem o que são. Serão sentimentos? Emoções? Não sei… mas sinto que transcende todas estas inutilidades.

Queria dizer mais do que aquilo que digo, mas não sei o quê. Escrevi tanto, palavras atrás de palavras, preenchendo folhas, umas atrás das outras, e sinto que não disse nada, absolutamente nada. Será porque o dicionário ainda é muito restrito e aquilo que quero dizer ainda não é um vocábulo com um significado perceptível?

Eu sei que não preciso escrever mais porque tenho a estranha certeza de que te identificas com cada palavra que aqui coloquei, numa tentativa de embelezar este texto. Sei que me ajudarás a encontrar novos vocábulos que expliquem ao mundo aquilo que sentimos sem precisar proferir qualquer palavra…